Fico um pouco ressabiado com essa interpretação, embora reconheça sua plausibilidade. Difícil crer que aquilo tudo teria um sentido militante. Aliás, difícil crer que aquilo tudo teria qualquer sentido. O filme é descontrolado, apelativo, quase desesperado. Não posso decidir se o filme é bom ou não, mas, certamente, não tenho dúvidas de que não é um filme bom de assistir. Pode até ser bom, mas não traz bem-estar.
Outro dia, tive o prazer de ler uma crônica muito instigante do psicanalista Contardo Calligaris comentando o movimento que ele entitulou "a turba da Uniban". Ele foi feliz por ter sugerido que o evento teria evocado uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa. No lugar das tochas, diz ele, os celulares acesos. De minha parte, tudo isso me evocou outro filme de Lars Von Trier, estrelado pela charmosa Nicole Kidman: Dogville. Não foi à tôa que a turba da Uniban e a obra do melancólico dinamarquês se cruzaram na minha cabeça. Foi o psicanalista que me sugeriu que tudo isso deveria ter relação com o obscuro desejo feminino.
À primeira vista, tanto o comentário sobre a turba da Uniban quanto o comentário sobre o "Anticristo" parecem ter alguma razão: o problema está na dominação fálica, que não deixa a mulher desejar o que ela quer, impondo-lhe um desejo conforme a norma masculina (normale - norma male). Parece até que Lacan concordaria com isso. Por outro lado, porém, não parece nem um pouco que Trier teria isso em mente durante suas crises melancólicas que lhe teriam inspirado o filme.
À parte nossas conjecturas sobre o que os autores pensariam disso, a questão é que, em ambos os casos, o papel de vítima parece um pouco forçado demais para a mulher. Não quero, de modo algum, defender a postura da faculdade que quis expulsar a moça, ou, ainda menos, os 700 alunos loucos machistas, cuja natureza deliquente e ignorância os levaram a tomar uma atitude tão desumana. Digo somente que a fronteira entre vítima e dominador me parece muito menos nítida do que o necessário para a efetivação de nossa determinação política.
Quando Von Triers faz uma mulher pesquisadora do 'genocídio' feminino acreditar nas superstições de perigo que justificaram seu sacrifício perante seus algozes, ele não parece querer denunciar o absurdo contido na superstição. Poderíamos colocar no campo da fantasia a suposta natureza demoníaca da mulher, relacionando-a com a fantasia da vagina dentada que devoraria o pinto do menininho levado (ou que o esmagaria com uma pedra, a exemplo do que foi feito com os testículos de Chronos). Segundo essa hipótese, seria a angústia masculina de castração a grande responsável pela fantasia de crueldade feminina e pelo medo que sempre se teve de deixar desejá-la livremente.
Eu diria que, em suas crises melancólicas, Von Trier chegou à constatação de que essa fantasia era real demais. Acredito que ele não quis dizer que os homens tiveram razão em queimar as bruxas na fogueira, mas também não acredito que ele tenha querido dizer que a mulher seja inofensiva. Haveria, então, um perigo real no desejo (ou no gozo) da mulher?
Não posso responder afirmativamente pois, com certeza, seria mal interpretado. Tenho, porém, a intuição de que não é nada simples para a mulher afundar-se nesse pântano sem algum objeto no qual agarrar-se (objeto que, às vezes, coincide com o falo masculino). A questão é que nenhum objeto é capaz de servir para salvar todas as mulheres de afundar o desejo nessa obscuridade. Bem que o movimento feminista tenta levantar algumas coisas, outros movimentos tentam levantar outras, mas é difícil, mesmo para eles, reconhecerem que, às vezes, uma mulher possa preferir outra coisa. Às vezes uma mulher pode querer ser submissa a um homem agressor, por isso a militância feminista existe, para salvá-la desse desejo perigoso. Às vezes, ela pode querer furar a perna de seu homem com um esmeril para atachar-lhe uma grande roda de cimento, garantindo, assim, que aquele homem não fuja ante ao seu desejo.
Em Dogville, Von Trier já parece ter tido a intenção de borrar as fronteiras entre os bons e os maus. Lá, vemos pessoas piedosas realizarem seus impulsos perversos contra a moça forasteira. Da mesma maneira, vemos a moça, considerada perigosa, de natureza má (uma mulher), buscar sua redenção com uma devoção quase masoquista para, no final, deixar imperar sua sede de vingança. Ou seja, em nenhum momento o bem e o mal coincidem com o sujeito da ação. O sujeito oscila entre os dois predicativos.
No caso de "Anticristo", a violência parece oscilar entre dominante e dominado, entre vítima e algoz, entre homem e mulher. No caso da turba da Uniban, talvez seja também o caso de admitirmos que a responsabilidade pelo jogo de provocações também possa ter oscilado. Claro, isso não apaga a covardia de 700 contra 1. Parece, contudo, plausível admitir que uma mulher possa ter um desejo tão perigoso: de provocar, com o seu corpo, um rebuliço tão grande numa multidão como essa. É preciso admitir uma coisa: aquela minissaia era poderosa demais!
Enfim, para todos os efeitos - políticos, pedagógicos e até filosóficos - não podemos admitir um desejo tão absurdo. Ancoremos, portanto, o desejo da mulher num lugar mais seguro: ela só queria, como sentencia o psicanalista, sexo com o namorado após a balada! Era só isso!

