Domingo, Novembro 15, 2009

O obscuro desejo da mulher


É um título sonoro este. Pode ser meio clichê, mas as pessoas não ousam discordar dele. Considero melhor do que "Anticristo". Menos enigmático, admito. Mas não quero defender o título, quero apenas evocar uma discussão que nos acompanha aqui: essa coisa do jogo dos sexos. Fiquei supreso por haver encontrado, numa crônica de jornal, uma interpretação do filme de Lars Von Trier sugerindo que se trataria da retratação, para não dizer da denúncia, de uma histórica dominação masculina sobre a mulher. No final das contas, todo aquele horror exposto na obra retrataria a guerra entre os sexos.
Fico um pouco ressabiado com essa interpretação, embora reconheça sua plausibilidade. Difícil crer que aquilo tudo teria um sentido militante. Aliás, difícil crer que aquilo tudo teria qualquer sentido. O filme é descontrolado, apelativo, quase desesperado. Não posso decidir se o filme é bom ou não, mas, certamente, não tenho dúvidas de que não é um filme bom de assistir. Pode até ser bom, mas não traz bem-estar.
Outro dia, tive o prazer de ler uma crônica muito instigante do psicanalista Contardo Calligaris comentando o movimento que ele entitulou "a turba da Uniban". Ele foi feliz por ter sugerido que o evento teria evocado uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa. No lugar das tochas, diz ele, os celulares acesos. De minha parte, tudo isso me evocou outro filme de Lars Von Trier, estrelado pela charmosa Nicole Kidman: Dogville. Não foi à tôa que a turba da Uniban e a obra do melancólico dinamarquês se cruzaram na minha cabeça. Foi o psicanalista que me sugeriu que tudo isso deveria ter relação com o obscuro desejo feminino.
À primeira vista, tanto o comentário sobre a turba da Uniban quanto o comentário sobre o "Anticristo" parecem ter alguma razão: o problema está na dominação fálica, que não deixa a mulher desejar o que ela quer, impondo-lhe um desejo conforme a norma masculina (normale - norma male). Parece até que Lacan concordaria com isso. Por outro lado, porém, não parece nem um pouco que Trier teria isso em mente durante suas crises melancólicas que lhe teriam inspirado o filme.
À parte nossas conjecturas sobre o que os autores pensariam disso, a questão é que, em ambos os casos, o papel de vítima parece um pouco forçado demais para a mulher. Não quero, de modo algum, defender a postura da faculdade que quis expulsar a moça, ou, ainda menos, os 700 alunos loucos machistas, cuja natureza deliquente e ignorância os levaram a tomar uma atitude tão desumana. Digo somente que a fronteira entre vítima e dominador me parece muito menos nítida do que o necessário para a efetivação de nossa determinação política.
Quando Von Triers faz uma mulher pesquisadora do 'genocídio' feminino acreditar nas superstições de perigo que justificaram seu sacrifício perante seus algozes, ele não parece querer denunciar o absurdo contido na superstição. Poderíamos colocar no campo da fantasia a suposta natureza demoníaca da mulher, relacionando-a com a fantasia da vagina dentada que devoraria o pinto do menininho levado (ou que o esmagaria com uma pedra, a exemplo do que foi feito com os testículos de Chronos). Segundo essa hipótese, seria a angústia masculina de castração a grande responsável pela fantasia de crueldade feminina e pelo medo que sempre se teve de deixar desejá-la livremente.
Eu diria que, em suas crises melancólicas, Von Trier chegou à constatação de que essa fantasia era real demais. Acredito que ele não quis dizer que os homens tiveram razão em queimar as bruxas na fogueira, mas também não acredito que ele tenha querido dizer que a mulher seja inofensiva. Haveria, então, um perigo real no desejo (ou no gozo) da mulher?
Não posso responder afirmativamente pois, com certeza, seria mal interpretado. Tenho, porém, a intuição de que não é nada simples para a mulher afundar-se nesse pântano sem algum objeto no qual agarrar-se (objeto que, às vezes, coincide com o falo masculino). A questão é que nenhum objeto é capaz de servir para salvar todas as mulheres de afundar o desejo nessa obscuridade. Bem que o movimento feminista tenta levantar algumas coisas, outros movimentos tentam levantar outras, mas é difícil, mesmo para eles, reconhecerem que, às vezes, uma mulher possa preferir outra coisa. Às vezes uma mulher pode querer ser submissa a um homem agressor, por isso a militância feminista existe, para salvá-la desse desejo perigoso. Às vezes, ela pode querer furar a perna de seu homem com um esmeril para atachar-lhe uma grande roda de cimento, garantindo, assim, que aquele homem não fuja ante ao seu desejo.
Em Dogville, Von Trier já parece ter tido a intenção de borrar as fronteiras entre os bons e os maus. Lá, vemos pessoas piedosas realizarem seus impulsos perversos contra a moça forasteira. Da mesma maneira, vemos a moça, considerada perigosa, de natureza má (uma mulher), buscar sua redenção com uma devoção quase masoquista para, no final, deixar imperar sua sede de vingança. Ou seja, em nenhum momento o bem e o mal coincidem com o sujeito da ação. O sujeito oscila entre os dois predicativos.
No caso de "Anticristo", a violência parece oscilar entre dominante e dominado, entre vítima e algoz, entre homem e mulher. No caso da turba da Uniban, talvez seja também o caso de admitirmos que a responsabilidade pelo jogo de provocações também possa ter oscilado. Claro, isso não apaga a covardia de 700 contra 1. Parece, contudo, plausível admitir que uma mulher possa ter um desejo tão perigoso: de provocar, com o seu corpo, um rebuliço tão grande numa multidão como essa. É preciso admitir uma coisa: aquela minissaia era poderosa demais!
Enfim, para todos os efeitos - políticos, pedagógicos e até filosóficos - não podemos admitir um desejo tão absurdo. Ancoremos, portanto, o desejo da mulher num lugar mais seguro: ela só queria, como sentencia o psicanalista, sexo com o namorado após a balada! Era só isso!

Domingo, Setembro 27, 2009

O jogo amoroso

A conquista amorosa, todo homem sabe, é um jogo. Não há definição melhor para a experiência de conquistar uma mulher: o jogo é a analogia perfeita para o flerte que antecede o primeiro beijo que marca o início de um relacionamento, dure ele uma noite ou a vida toda. Seja longa ou curta, a conquista amorosa é um jogo que deve ser jogado com maestria e cuidado. Há alguns homens que se profissionalizam, outros são amadores, não importa: para conquistar o coração de uma dama, o homem deve estar disposto a entrar no espírito e jogar, com ela, esse jogo onde – esperamos – todos ganham no final.

Portanto, para simplificar minha exposição, acredito que a conquista amorosa se divide em dois tipos de jogo: o jogo Co-Op, ou modo cooperativo, e o famigerado Match, ou modo disputa. Pode haver jogos onde esses dois modos se intercalem, mas é mais provável que a conquista amorosa se baseie inteiramente em um ou no outro. Vejamos, portanto, como cada modo se configura, e o que se deve ou não se deve fazer em cada um deles.

O modo Co-Op é como um jogo descontraído de frisbee na praia, ou um jogo de squash. Essas são as conquistas nas quais não apenas um indivíduo está interessado no outro, mas ambos se encontram e buscam deixar claro – com uma intensidade crescente, até o clímax do beijo – que o interesse é recíproco, e o encontro final, inevitável. No modo Co-Op, o objetivo da conquista não apenas é compartilhado – ambos sabem o que querem – como os dois participantes trabalham ativamente em prol de uma meta comum. O banco na mesa do bar está propositalmente ao lado do outro. A noite deste sábado está – vejam só, que coincidência! – absolutamente livre e disponível. As caronas das amigas são sumariamente rejeitadas. Cada flerte ou indireta é prontamente recebido com um sorriso ou, o que é melhor, com outra indireta (cada vez menos sutis). Cada movimento de um parceiro amoroso é somado ao movimento do outro, cada passo em direção ao beijo ansiado é um ritual que ambos sabem necessário cumprir – tais as regras sociais implícitas da corte amorosa. Não há fuga – o que não quer dizer que não haja nervosismo – e tampouco protelações: os jogadores se revezam para que a bola continue quicando na parede, e o disco não caia no chão. As únicas ameaças para o modo Co-Op, portanto, são externas, apenas fatores alheios à partida podem interferir em seu final.

O modo Match, por sua vez, é para praticantes radicais. O sentimento de atração mútua existe – do contrário, não há jogo, apenas assédio – mas o caminho para a meta final é arriscado, cheio de “poréns”, desvios, desencontros, mal-entendidos, embaraços. Como o próprio nome sugere, esta é uma disputa: os movimentos do homem são como movimentos de um jogo de xadrez que precisam ser medidos cuidadosamente; cada frase precisa ser pensada, cada investida deve ser meticulosamente calculada ou botará tudo a perder. Como uma disputa, os movimentos de um participante anulam os movimentos do outro, e às vezes recua-se, afastando-se da meta; outras vezes uma jogada audaciosa e bem planejada colocará o homem mais perto do coração de sua amada: ganha-se terreno. Contudo, o modo Match exige cuidado e esforço em um tempo determinado: o flerte que se alonga demais ultrapassa certa linha de segurança, o interesse da dama se arrefece, impacienta-se. Tanto foi dito, tanto foi feito, e nada sucedeu; é mais provável que o embaraço seja tão grande que os dois participantes simplesmente se distanciem, confusos e envergonhados porque nada aconteceu no tempo em que deveria acontecer, emaranhados no meio de tantas tentativas frustradas de aproximação que não deram em nada.

Voltando ao propósito do Match: o objetivo do homem é conquistar o coração da dama; o objetivo da dama, sortear empecilhos. O interesse da mulher (que, num nível elementar e quase intuído, existe) sempre está mascarado, propositalmente obscuro, nunca dito com clareza – e como os homens precisam de clareza! As indiretas são rebatidas com provocante – quase genuína! – ingenuidade, ou respondidas de uma forma tão vaga que nunca se saberá com certeza sua eficácia. Às vezes a mulher tem apenas vergonha, e todas as possibilidades de encontro ocorrem em grupos; às vezes o flerte é recebido com ambigüidade ou respondido literalmente – para pouco tempo depois ser reinterpretado por ela mesma, reacendendo o desejo: não importa como, o desejo da mulher jamais será do homem sem que ele prove merecê-lo, está-se sempre por um fio. Em alguns casos, pode-se mesmo dizer que o objetivo da mulher é desnudar, de uma vez por todas, o desejo implícito do homem, expô-lo inteiramente em seu próprio campo. E se isso acontecer, sempre haverá a possibilidade – as mulheres às vezes são bem cruéis – do desejo exposto ser negado: o homem deve vencer o Match sem denunciar-se; ele só ganha se conseguir desviar-se dessas armadilhas femininas protegendo suas intenções da exposição ao ridículo. Como eu disse, esse jogo não é para os fracos.

Assim, o Match se desenvolve enquanto o homem procura enredar a fugidia mulher em seu desejo sem, com isso, estilhaçá-lo no discurso vazio. Ele deve provar seu valor antes do tão almejado prêmio: o Match é quase um ritual, uma prova de resistência e sagacidade. Um movimento em falso, uma manobra ousada demais, e o jogo termina. De repente, instigado pela mulher, o afoito amante manda uma mensagem que, mais tarde, lhe parecerá boba e ridícula. Entre impaciente e envergonhado, recriminando-se pela afobação, ao homem só restará lamentar-se: como a dama de seu coração é difícil! E talvez por isso a ame mais ainda, e o jogo se alongue até o final por W.O.

Mas nem tudo são pedras no caminho do Match. Ao jogador desse jogo imprevisível, arriscado, aplica-se com certa parcimônia o provérbio que dita que “as melhores mulheres estão com os homens mais atrevidos”. Se as jogadas certas, no tempo certo, podem – vejam bem, podem – significar êxito na partida, certas manobras ousadas podem ser decisivas para o resultado final. O bom uso da tensão que perpassa o jogo – o desejo, a sensação de ridículo, o desnorteamento, a falta de certezas – pode virar a partida a favor do homem: em sua precariedade frente ao enigma do desejo feminino, ele arrisca, expõe-se contrariando todas as regras e normas e ordens do jogo, pondo-se audacioso e verdadeiro frente à mulher, elegante manobra tudo-ou-nada semelhante à cartada final do truco, que é tão mais vencedora quanto mais temerosa, imprevisível e súbita. Essa manobra arriscadíssima, claro, não elimina uma possível derrota – a mulher, assustada, pode recuar com seu desejo –, mas muitas vezes é responsável por vitórias vibrantes e apaixonadas.

Finalmente, qual jogo é o melhor? Impossível dizer. Cada qual tem seu mérito, seus prazeres. Na verdade, feliz ou infelizmente, não cabe tanto ao homem decidir qual jogo jogar: primeiro, porque ele simplesmente não manda em seu coração – e, conseqüentemente, não escolhe por quem ele irá se apaixonar –; segundo, porque quem ditará as regras do jogo sempre será a mulher. Ao homem, como sempre foi em incontáveis eras humanas, cabe tentar segui-las – ou corajosamente subvertê-las.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Um destino tão funesto, se não é digno de Atreu, é digno de Tieste...

Caro Mosaias,

A última carta foi apenas uma provocação.
O que eu gostaria de destacar agora é o quanto nosso ofício é patético!
Veja bem, eu digo patético no sentido de que nós estamos lá para receber toda a carga de pathos da qual o mundo quer se desfazer.
É patético também num sentido mais vulgar e pejorativo, visto que a matéria de toda essa carga não deixa de ser uma patetagem imensa!
Assista, por exemplo, o filme "He's just not that into you", e sinta o quão deprimente é grande parte da vida amorosa dos seres humanos.
Homens e mulheres circulam atônitos buscando sondar o mistério do desejo do outro. Querem alguma segurança para assumirem sua própria posição na construção de uma possível relação. Criam regras, estratégias, defesas, teorias, fantasias para tentarem abordar uma realidade tão líquida.
Justificar os fracassos com a idéia de que, na verdade, ele não está tão a fim de você, é, no mínimo, um consolo frustrante. Mesmo quando parece a aceitação de uma verdade pornograficamente nua.
Pois, os maiores fracassos surgem, justamente, quando o desejo está mais intenso.
O próprio zelo que o autor da carta abaixo demonstra pela figura da preciosa Scarlett Johansson não passa de um capricho. Ela mesma nunca conseguiria sustentar na vida os papéis para os quais é convocada na ficcção. Ainda que sua ficção indique, em seus próprios desdobramentos, a direção de um destino inelutável. Isso é claro para quem já pescou em uma meia dúzia de uns três ou quatro filmes onde ela, sempre convocada para o lugar da Outra mulher, provocante e sensual, acaba a história sozinha (ainda que tudo o mais no filme acabe se encaixando, ela sempre sobra). Pode ser fraqueza dos roteiristas, de não suportarem dá-la a um só homem, mas não deixa de evocar, em uma figura que se constrói, a idéia da insatisfação crônica de um desejo incontornável.
Enfim, é isto o mais deprimente, meu caro Mosaías: por que investimos numa aposta que, de saída - ainda que nada percamos - tudo indica que não a ganharemos?

Sexta-feira, Março 27, 2009

Carta a Scarlet Johansson

Cara Scarlett Johansson,

Escrevo-lhe esta carta para apresentar-lhe uma declaração, embora não espere que a Sra. a leia. Não sei dizer se isto vem a ser, verdadeiramente, uma declaração de amor, ou se há, por acaso, qualquer vestígio de falsidade em meu encantamento.

O fato, porém, que eu não posso negar, e que ouso declarar, é que, da observação da imagem que a Sra. ostenta nas telas, resulta-me um profundo encantamento (Insistirei em tratá-la por Sra., em demonstração de meu profundo e sublime respeito e, segundamente, por respeito ao Mr. Ryan Reynolds, que ousou desposá-la).

Dirijo-me à Sra. porque gostaria de expressar algumas interrogações a respeito da razão desse encantamento. De minha parte, acredito que minha sensibilidade pouco aguçada pode falhar em encontrar semelhantes maravilhas ao meu redor. Entretanto, aceito parcialmente a sugestão pouco elegante que pulula aos montes na boca e no espírito dos críticos de que a Sra. foi feita para isso.

Pode ser excesso de inocência de minha parte, mas, já me custa crer que a Sra. não tenha sido feita por anjos, arcanjos, elfos ou outras entidades supra-humanas, de modo que me custa ainda mais acreditar que os produtores hollywoodianos detenham tanto poder assim, de produzir uma imagem capaz de provocar tão fortemente o desejo.

Para mim, pois, a Sra. não é um produto cinematográfico. O que me atiça enormemente a curiosidade de saber de que é feita a Sra. Scarlett Johansson. Seu pai, inclusive, foi divinamente inspirado quando se lembrou de oferecer à Sra. um nome tão sonoro.

Talvez eu tenha franqueado demasiadamente os limites do pudor e do respeito insinuando que a Sra. provoca desejo. Corrigiria para a palavra já utilizada - "encantamento" -, se não me sentisse obrigado a avançar ainda um pouco mais longe (com a permissão da Sra.): a Sra. porta um sorriso assaz peculiar, que eu colocaria, paradoxalmente, no domínio de uma sensualidade inocente!

Pelo amor de Deus, não rasgue ainda esta carta! Não pense que eu queira atribuir à Sra. qualquer sombra de maldade ou de vulgaridade. De maneira nenhuma. A sua imagem é completamente inocente, porém, a despeito dessa sublime pureza, não deixa de despertar certa concupiscência, um pequeno traço de sensualidade.

Pois é exatamente isso que significa a sensualidade inocente de seu sorriso. Nos filmes, isso parece a medida exata de uma sabedoria finíssima e elegante. Parece que, ao esboçar docemente aquele sorriso terno, a Sra. apreendeu a medida exata de manifestação de um espírito feminino capaz de deixar um homem sem palavras.

Atribuir à sabedoria a competência que a Sra. tem para fazer-se bela parece ser uma solução bastante elegante para o impasse quanto ao mérito de sua imagem. Que uma mulher saiba como fazer-se bela para cativar um homem, isso talvez seja algo que, embora difícil, não seja tão incomum nos nossos pequenos dramas particulares. Entretanto, manejar um artifício que funcione para o conjunto dos homens parece um dom verdadeiramente digno da expressão 'sabedoria feminina'.

Não estou aqui, porém, para indagá-la sobre o seu segredo. Aliás, preferia não conhecê-lo, se ele existir. Temo que isso quebre o encantamento. A descoberta do segredo pode, desastrosamente, romper a harmonia entre a imagem que a Sra. oferece e a fantasia que ela desperta em minha assistência dedicada.

Para não ocupar ainda mais seu precioso tempo, despeço-me dedicando-lhe meus humildes louvores à sua beleza, e desejando que ela dure para sempre. Que ela persista em seu interior mesmo quando seus artifícios já não forem mais tão eficazes e abrangentes. Que ela persista em seu coração, mesmo quando desaparecer da memória frívola de todos os homens que a adoram. Que ela persista em sua alma, mesmo quando seu corpo já não evocar mais o mesmo brilho. Que ela persista em sua memória, mesmo quando eu, tão descuidado que sou, já me houver esquecido da intensidade desse encantamento.

Domingo, Março 01, 2009

A relação a dois

Começamos na coluna anterior a tratar do amor: gostaria hoje de falar um pouco sobre o deslumbramento amoroso e algumas de suas dificuldades.
Como um amor começa? Amante e amado se instalam juntos no cotidiano, seja em presença fruída – quando se está perto – ou em ausência sentida – quando se está longe. Para que? Para que o cotidiano de um seja o cotidiano de outro. É neste dia-a-dia que o prazer da intimidade compartilhada, cúmplice, se inscreve. De repente o outro se faz vizinho, conhecedor do nosso eu sem máscaras: é o cotidiano de um tornando-se o cotidiano do outro. Assim, o amado invade tantas áreas da vida do sujeito que tudo tem um dedo dele! Mesmo o sentido das coisas, antes absolutamente pessoais, torna-se compartilhado, e o amado, seu centro: o trabalho, antes um prazer por si mesmo, agora é o lugar onde o amado pode ser encontrado; o curso, antes uma escolha por interesse ou paixão, agora lembra os gostos e aspirações do outro; o prato predileto, o esporte preferido, o livro de cabeceira, a música do casal, são agora lembretes de um amor que se infiltrou nesse cotidiano de prazeres e particularidades.
Esse é o apaixonante da intimidade com o amado; mas também pode ser o lado doloroso de um fim indesejado: se o amor acaba, acaba-se também o sentido das coisas. A devastação é o resultado iminente, uma falta de propósito na vida e nas experiências, porque tudo lembra o amado. Esse deslumbramento amoroso, portanto, tem duas faces que tantas vezes experimentamos como opostos, mas que são resultados da mesma coisa: amar alguém é torná-lo parte integral de nossa vida e do sentido que damos a ela.
Além disso, não é de duas pessoas de quem falamos. São três os objetos de investimento amoroso: eu, o outro e o nós. Uma triangulação perfeita, onde eu e o outro cuidam do “nós” – estar junto é fazer crescer uma experiência a dois. Se a experiência do outro, a vivência do “nós” não passa do concreto – o relacionamento é apenas o encontro dos corpos – os conflitos se passam nesse nível; brigas físicas e discussões enérgicas serão as únicas ferramentas disponíveis para a resolução das desavenças. O resultado, é claro, não poderia ser pior. Uma vez vi um casal novo passeando no shopping: ela o abraçava com força enquanto andavam, ele passava o braço ao redor do pescoço dela, quase como uma estrangulação, enquanto se beijavam com firmeza e certa brutalidade. O terceiro da relação, a elemento “nós”, era absolutamente corporal. A experiência de distanciamento físico para os dois jovens pombinhos, creio eu, deveria ser muito sofrida e as brigas, quando surgissem, deveriam ser extremamente confusas e penosas para ambos, muitas vezes acaloradas e talvez até mesmo salpicadas por agressões físicas mútuas.
E o que aconteceria com um amor mais sutilizado? Se os amantes possuem uma concepção suficientemente abstrata de si mesmos, há a possibilidade do “nós” também tornar-se cada vez mais abstrato. A necessidade de se comprovar o relacionamento no físico pode ser menor ou mais suave. A distância física pode ser melhor suportada e/ou substituída pela segurança de se estar junto, em pensamento. Amante e amado se vivem num relacionamento mais subjetivo, mas também resolvem suas inevitáveis desavenças pela fala: conversas duras, talvez discussões intelectualizadas, em detrimento da briga física. Independente da situação, sempre se deve cuidar do “nós”: do contrário, o amor pode tornar-se opressor, destituindo os prazeres da intimidade e o encanto do cotidiano por questões que, quase sempre, não valem a pena. Ter a fortaleza de caráter necessária para sustentar uma relação até o final é coisa para poucos. E é por isso que o amor é para os fortes de espírito. Amar, no final das contas, é uma constante afirmação de coragem: é por isso que se ama sempre de peito aberto.

Sejamos bravos, então. E amemos.

Na próxima coluna, a última parte sobre o tema.