Quarta-feira, Setembro 29, 2010

De que depende sua felicidade?

Para aqueles que acharam o último post longo, hermético e cansativo, resolvi dar-lhes uma colher de chá e escrevê-lo novamente, numa linguagem mais breve, mais banal e possivelmente mais agradável. Preferia deixar que algum jornalista fizesse essa síntese por mim, mas eles também reclamaram da tarefa, então, daremos uma força.

O que eu disse foi basicamente que, no decorrer dos tempos, a felicidade para o homem depende de algumas coisinhas: do destino, da razão, da fé e da caridade, do trabalho e do consumo. São alguns elementos que podem estar, em maior ou menor grau, presentes e determinando a felicidade de muita gente ainda hoje. Entretanto, eu pretendi demarcar algo como o espírito de uma época, aquilo que é mais marcante do que os outros determinantes.

Assim, no período da Ilíada, a felicidade dos guerreiros dependia basicamente do destino e da coragem - mais do destino do que da coragem. Eles buscavam viver uma vida justa e corajosa e agradar aos deuses, na esperança de que eles não acordassem de mal humor. Mas, poxa, os deuses naquela época eram bem caprichosos e, muitas vezes, deixar a felicidade nas mãos deles significava a possibilidade de um destino bem trágico! É isso que a tragédia grega denuncia. Antígona, por exemplo, mesmo tendo sido tão corajosa e obediente às leis superiores, a ponto de enfrentar o decreto do rei e dar um enterro digno a seu irmão, termina por morrer emparedada, sem que nenhum dos deuses a recompensasse por sua bravura.

Tempos depois, os gregos começam a achar, antecipando Roberto Carlos, que, para ser feliz, é preciso saber viver. Não basta ser corajoso e temente aos deuses, mas é preciso aprender o que torna a alma feliz e, com sabedoria, orientar a vida de modo a conduzi-la nos melhores caminhos. Apesar do grande impacto que os gregos tiveram no pensamento ocidental, a difusão do cristianismo faz surgir outros elementos orientadores da vida do homem rumo à felicidade: a fé e a caridade. Deus recompensaria aqueles que cressem nas boas novas, mas de um modo muito peculiar: "deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, não vo-la dou como o mundo a dá". Isso significa que, para Cristo, seria possível uma felicidade no sofrimento, se esse sofrimento exaltasse a fé e a justiça: "bem-aventurados (ou felizes) os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os que lutam pela paz, serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino de Deus".

Os tempos modernos fazem ressurgir a confiança do homem no saber para a busca de sua felicidade. Entretanto, esse saber não é um saber que tem a alma e a vida por objeto, mas um saber focado nas maneiras de se transformar a realidade e subjulgar a natureza. É o saber técnico que orienta o trabalho e o esforço do homem no sentido de produzir a sua própria felicidade. Ao lado disso, muito mais recentemente, além de obter a felicidade pelo suor do seu rosto, é imperativo que o homem guarde um pouco do seu tempo para usufruir dos frutos de um trabalho que não é necessariamente o seu, mas que é de todos. A felicidade do homem passa, então, a ser medida pela capacidade que ele tem de consumir os objetos que estão disponíveis para o seu gozo!

Muita gente ainda deposita no destino a esperança de felicidade. Outros, alguns raros, ainda almejam uma vida contemplativa e sábia, outros ainda exercitam a fé e as boas obras, outros dão o sangue no trabalho e, por último, outros se debatem com o desejo de uma casa nova, um carro novo, um sapato novo, uma bolsa nova; pequenos pedaços de felicidade que podem ser conquistados com o auxílio do cartão de crédito. Independente, porém, do nível de sucesso que se obtém, o que marca a felicidade do homem é a possibilidade de escolher os seus caminhos e de enganar-se, mesmo de ser infeliz, desde que podendo sonhar com bem aventurado porvir!

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