"Amor líquido é um amor "até segundo aviso", o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometerem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele."
(Zygmunt Bauman - ISTO É online, 24.set.2010)
Acredito que o discurso de Sócrates no Banquete descreve em parte uma realidade que apenas recentemente começamos a conhecer em sua radicalidade, nos tempos ditos pós-modernos. Segundo o filósofo, Eros seria um daimon, filho de Poros (riqueza) e de Penia (pobreza). O que é marcante na alegoria é apresentar o amor como fruto, ao mesmo tempo, da riqueza e da pobreza, da carência e da fartura, do desejo, como falta, e da satisfação, como possibilidade de presença.
Quem ama não pode amar senão aquilo que deseja. Ninguém deseja aquilo de que não sente falta. O amor é, pois, tributário de uma riqueza da qual ele carece. Platão tinha seus motivos para ratificar, colocando na boca do mais sábio dos filósofos, justamente esse discurso que associa o amor à falta. Enquanto a alma está aprisionada pelo corpo, ela só pode estar sujeita às carências que esse corpo corruptível lhe impõe. Desse modo, seu amor estará dirigido a algo que lhe transcende e que ela não alcançará enquanto não se libertar de sua prisão no mundo sensível.
Platonismo à parte, essa constatação de que, enquanto ksuportado por um corpo, o amor estará sempre parasitado pelo desejo, definido como carência, não é de forma nenhuma anacrônica. Entretanto, desde que o mundo é mundo, desde sua expulsão do paraíso, o homem estaria fadado a vagar na busca de satisfazer suas carências inesgotáveis. O que haveria, então, de diferente na modernidade?
Antes de tentar esboçar uma resposta, é importante destacar o alcance dessa concepção. Schopenhauer, considerado o filósofo do pessimismo, foi quem melhor vislumbrou o alcance do discurso de Sócrates, ao conceber a vida do homem como um pêndulo que oscila entre a frustração e o tédio. Em "O mundo como vontade e representação", ele sugere que a vida é dominada por uma vontade imperiosa, que obriga os homens a buscarem aquilo de que sentem falta. Entretanto, ao alcançar aquilo que busca, o homem logo se entedia e, para livrar-se do tédio, que traz tanto sofrimento quanto a carência, estabelece para si mesmo novas carências que lhe possam tirar do marasmo. É como o andarilho que, após longas horas de caminhada pelo deserto, deseja ardentemente saciar sua sede. Contudo, depois de quatro ou cinco copos de água, o precioso líquido que ele buscava tão ardentemente passa a trazer apenas mal-estar, caso ele não pare de tomá-lo. O estado de saciedade torna o objeto, antes tão precioso, um elemento de repulsa. É o que parece testemunhar grande parte das experiências de casamento. Ou seja, o homem oscilaria entre a carência e a saciedade, entre o desejo e a satisfação, entre a falta e a presença, entre a frustração e o tédio, entre Penia e Poros.
Minha tese não propõe nenhuma mudança substancial na estrutura da experiência contemporânea. Proponho apenas que a velocidade do pêndulo encontra-se acentuadamente acelerada, neste que o sociólogo polonês denomina de "amor líquido". É como se a nossa resistência à frustração e ao tédio fosse fortemente rebaixada pela multiplicação das possibilidades de afastá-los de nossa vida. Tanto produzimos carências em escala industrial, quanto estabelecemos mecanismos diversos para, em vindo o tédio, descartamos imediatamente o objeto conquistado em busca de um novo gadget. Dessa forma, ao invés de fortalecer a alma, libertando-a das exigências do corpo, ensinando-a a suportar as carências em busca da riqueza que lhe é própria - como propunha Diotima -, ensinamo-la a trabalhar em prol do bem-estar do corpo, liquidando o mínimo sofrimento. É esse o programa da felicidade líquida, que não encontra nos objetos amorosos solidez suficiente para conter a oscilação do pêndulo.
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