Domingo, Outubro 10, 2010

Nossa Cidade

O espetáculo apresentado pelo Grupo Teatral Encena, inspirado na obra de Thornton Wilder e dirigido por Wilson Oliveira, traz para o espectador uma experiência rara. Trata-se da possibilidade de sair um pouco do piloto automático e observar a vida com um terceiro olhar, distanciado do mundo concreto.

Foi essa a experiência protagonizada pela personagem Emily Webb, interpretada por minha bela e talentosa amiga Raquel Lauar. Ao levantar a reflexão sobre o valor da vida cotidiana sob um ponto de vista de uma história já vivida e finalizada, o teatro nos dá a oportunidade de um olhar que é impossível no decorrer de nossa própria vida. É impossível porque não podemos sair da vida para contemplá-la.

Isso me remete naturalmente ao mito da caverna de Platão. Emily chega à mesma conclusão de Platão ao dizer que, afinal de contas, os vivos nunca compreendem direito as coisas, mas parecem que são eles os aprisionados no interior de um caixão. É de fato uma conclusão digna de Platão. Entretanto, enriquecida pelo lacrimejar pueril da interpretação louvável de minha amiga.

Eu disse ser impossível sair da vida para contemplá-la. Ratifico, contudo, minha posição. Acredito que em alguns momentos a arte é capaz de nos transportar momentaneamente para um espaço exterior à vida, de onde a contemplamos com alguma lucidez. Lembro-me de me sentir como a alma de Emily ao concluir a leitura de Dom Casmurro. Ao chegar ao final da história machadiana, fui tomado supreendentemente por uma melancolia que parecia ter a ver com a constatação da brevidade da vida. Bentinho parece nos mostrar como a vida é imprevisível e incerta, e como Capitu pode ir embora por que nos apegamos a detalhes que podem não querer dizer nada. É... acho que foi mais ou menos isso que a peça me transmitiu. Vale a pena assistir!

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