Segunda-feira, Novembro 01, 2010

O que desejam os homens?

Uma leitora me desafiou no último post a escrever sobre o que, afinal, os homens querem. É uma tarefa difícil, mas felizmente eu não estou aqui para dar minha resposta pessoal/parcial - o que seria muito mais decepcionante. Devo então pedir auxílio a dois grandes pensadores: Hegel e o Dr. Lacan. Imagino que as mulheres já devam começar a desanimar com essa notícia, prevendo tratar-se de outra elucubração intelectual incompreensível. Peço, porém, um voto de confiança. Prometo tentar oferecer uma leitura significativa das respostas desses autores:

"O que o homem deseja é o desejo do Outro".

- O que o senhor que dizer com isso?

Primeiramente, advirto: esse Outro aqui não quer dizer 'outro homem'. O aforisma, aliás, traz uma ideia muito simples, mas ao mesmo tempo crucial para a resposta que lhes formulo. Quer dizer que o que o homem deseja, no frigir dos ovos, é ser desejado. Para ser desejado, ele imagina dever tornar-se desejável, e é na definição dos critérios sobre o que é desejável que reside todas as confusões. É por isso também que os homens sempre se perguntam "o que quer uma mulher?", porque a resposta ajudaria a definir o que é desejável e, portanto, seria uma norte para o próprio desejo masculino.

O senhores ainda podem pensar:

- Mas como é esse negócio de desejar o desejo? - que coisa esquisita!".

Parece realmente estranho quando nos acostumamos a definir o desejo pelo objeto: "desejo uma maçã!"; "desejo uma bela mulher!"; "desejo um carro do ano!". O objeto, porém, é apenas uma metáfora para o desejo, um substituto, ou seja, é sempre um meio para se buscar outra coisa. Convidemos Aristóteles para explicar isso. Ele sugere que toda ação tem um fim que é o bem dessa ação, mas que há um encadeamento dos fins, uma espécie de hierarquia, que leva até o fim último, o Bem Supremo. Por exemplo: eu posso desejar dinheiro, mas não porque o dinheiro tenha um fim em si mesmo. Eu o quero somente porque ele me permite comprar um carro. Por outro lado, eu só quero o carro porque ele me permite 'pegar mais mulheres', e assim por diante.

Para Aristóteles, o fim último seria a felicidade. Contudo, isso não vem ao caso agora. As mulheres zombariam de mim com alguma razão se eu dissesse que os homens desejam a felicidade. Então, apliquemos esse raciocínio à resposta de Hegel - com a ajuda de Freud e Lacan. Os homens não desejam verdadeiramente o dinheiro, o carro e até as várias mulheres. Esses são apenas substitutos. Pode-se até querer isso tudo, mas não é o que se deseja. O desejo é sempre desejo de outra coisa, desejo de desejo. Se portanto, alguns homens ostentam suas riquezas, outros ostentam seus carros e outros suas mulheres, é apenas pelo fato de acreditarem que isso os torna desejáveis.

- Para quem?

- Para o Outro.

- Quem diabos é esse Outro?

Esse é o ponto mais delicado de responder. Tentemos, contudo. O Outro é um lugar ocupado por alguém importante e que dá todo sentido ao desejo do homem. É por isso que Freud acentua a imagem da mãe, como marcando para sempre esse lugar. Entretanto, esse é um lugar sempre meio vazio, sempre pronto a ser ocupado. Acontece às vezes de outra mulher - além da mãe - ocupar esse lugar para o homem. Nesse caso, o que o homem quer é parecer desejável para essa mulher. O problema é que ele já tem suas fantasias, seus critérios sobre o que é desejável - ter dinheiro, ter poder, ter prestígio, ter carro, ter outras mulheres, ter doutorado, ter olhos azuis ou cabelos lisos, enfim, ter alguma coisa, mesmo que seja um mero detalhe, que indique a sua 'potência fálica' (ou seja, que indica que ele é um homem à altura de ser desejado por uma mulher).

Mas vejam como isso é complicado. Ao mesmo tempo que essa 'marca pessoal' deve igualá-lo aos outros homens - ou seja, deve identificá-lo como pertencente à classe masculina -, essa marca também deve destacá-lo como exceção, para que ele seja mais desejável que os outros homens. Outro dificultador, mulheres, é que essa marca pessoal não é algo que os homens escolhem refletidamente, como uma escolha racional e consciente. Nem é algo que se troca do dia para a noite, ou de uma mulher para outra (aliás, parece mais fácil para as mulheres trocarem seus critérios de desejabilidade do que para os homens se livrarem dessa marca).

Para finalizar, lembro de uma amiga que uma vez se queixou para mim de que os homens seriam todos iguais. No final das contas, eles sempre queriam sexo. Contemplando-a de alto a baixo, pensei comigo que não seria eu quem deveria tentar desmentir sua tese e convencê-la do contrário. Em todo caso, concordo com Freud quando diz que há nos homens uma separação que aqui eu traduzo entre amor e sexo, ou entre desejo e gozo. Ou seja, sempre tem aquela mulher que ocupa esse lugar de "Outro" para o desejo masculino diante de quem, afinal, ele sempre se sente meio proibido de gozar. É diante dessa mulher que o homem é questionado e que, muitas vezes, precisa sentir-se autorizado a possuí-la. É para essa mulher que ele quer fazer-se desejável, mesmo em detrimento de todas as outras. Para as outras, funciona a lógica do "todo homem", ou, para evocar uma crônica de Luis Fernando Veríssimo, do "homem que é homem" (não rejeita mulher, por exemplo). Para a mulher que figura no lugar de "Outro" do desejo, não basta a regra geral, é preciso buscar o traço que o destaca entre todos os outros.

8 comentários:

Patrícia Monteiro disse...

"O que desejam os homens?
Uma leitora me desafiou no último post a escrever sobre o que, afinal, os homens querem. É uma tarefa difícil, mas, os senhores sabem que eu não estou aqui para dar minha resposta parcial - o que seria muito mais decepcionante (...)"

Fábio, acho que o mais interessante seria mesmo a sua resposta pessoal, e não a "resposta" de Lacan ou Hegel. Não ficaria decepcionada com a sua opinião.

Siloé disse...

Oi, Patrícia! Jóia?
Obrigado pelo comentário! Certamente minha resposta pessoal se aproximaria um pouco dessa formulação geral, mas ela não responderia pelo conjunto dos homens. Lembrei de uma música que diz que "o meu querer é complicado demais, quero o que não se pode explicar aos normais!" (Catedral)... ou de uma frase da Clarice Lispector em "Perto do Coração Selvagem" que diz que "o que eu desejo ainda não tem nome". Enfim, eu prefiro dirigir minha resposta pessoal diretamente a alguma mulher de carne, osso e sangue que queira interrogar-me a respeito! (pelo menos por enquanto... mas, de todo modo, alguma coisa de pessoal sempre acaba passando ai no meio). Bjos!

Elaine disse...

Achei bem interessante...Pra mim é um pouco complicado mais deu pra entender.rsrs

aline disse...

Uma pena vc começar por subestimar o interesse da mulheres por assuntos intelectuais...

Siloé disse...

Olha, Aline! É mesmo! kkk... sabe que eu não reparei?!?! Bom... tvz eu devesse me justificar dizendo que a decepção das mulheres seria com as elucubrações incompreensíveis, e não propriamente com os temas intelectuais. De todo modo, reconheço minha culpa. Embora tenha recebido logo no primeiro comentário uma crítica confirmando a decepção pela abordagem lacaniana e hegeliana! Fui infeliz nas minhas palavras, e vc é uma prova de que também há mulheres hegelianas!!!!

Aline Martins disse...

Oi Fabio,

a questão que levantei no último texto foi mais uma crítica ao binarismo ao qual vc se filia e usa nomes de peso para justificar. Mesmo invocando Hegel e Lacan continuo discordando da sua separação de gênero. Em todos os seus textos consigo me identificar ora com um dos lados e ora com o outro (sexo).
E não adianta tentar me patologizar para justificar o seu posicionamento expondo minha histeria. Prefiro os textos mais recentes nos quais vc fala por si mesmo sobre o amor e a alma humana, sem separação e aprisionamento. Bjs

Siloé disse...

Na verdade, aline ... eu não preciso te patologizar. Mas eu acho que o seu raciocínio, qdo lê meu texto, está impregnado pelo paradigma culturalista. Ou seja, qdo eu falo em sexuação vc entende pertencimento a uma classe ou gênero - e eu não tenho culpa disso pq não to falando nada disso. Aliás, nem o Lacan, nem o Hegel, nem eu ratificamos o binarismo de gênero. Certamente a gente sustenta um certo binarismo simbólico, ao contrapor sujeito x objeto, amante x amado, feminino x masculino.... etc... Mas é uma posição no domínio significante. E é claro que vc circula na cadeia significante, ocupando ora uma posição, ora outra. Vc se movimenta bem na linguagem, embora possa ter alguma posição preferida.

Aline Martins disse...

Oi Fábio,
desculpe pelo mal entendido então. Pensei que vc estivesse falando de Homens e Mulheres.