Sábado, Janeiro 29, 2011

É melhor ser o amante que o amado...

Primeiramente, devo adverti-los de que esse título não tem o sentido vulgar que primeiro lhes veio à cabeça de todos. Não quero dizer que seja melhor ser o amante que o marido. Não uso a palavra no sentido de clandestinidade sexual. O par amante e amado remete ao que os gregos - sobretudo em O Banquete, de Platão, que é aqui sempre evocado - chamam de ερώμενο. É um termo que permite articular, como diz Lacan, "o que se passa no amor no nível deste par formado, respectivamente, pelo amante e pelo amado, o érastès e o érômenos".

A afirmação, porém, parece de fato um contrasenso. Os senhores devem imaginar como é patentemente óbvio que o que as pessoas mais querem é ser amadas! A ponto de Freud dizer que os ideais básicos do homem seriam o poder, o prestígio e o amor das mulheres! De fato todos desejam ser amados e parece-nos infinitamente melhor receber o maior amor possível, advindo do maior contingente de pessoas, do que apenas amar e não ser correspondido. "Que ideia mais medievalmente cristã esta: amar e não ser amado!", dirão os senhores.

Se voltarem, contudo, para a experiência cotidiana, verão que digo a verdade - pelo menos num certo nível. Se por "melhor" entendermos algo mais emocionante, mais impressionante, mais marcante, os senhores logo me darão razão. O amante é aquele que ama (bah!), aquele que deseja o outro. E, seguindo a melhor tradição do banquete, desejamos aquilo de que sentimos falta. O amante, portanto, deseja. O amado, por outro lado, já tendo recebido o amor (desejado ou não), pode simplesmente usufrui-lo. Enquanto, pois, o amante deseja, o amado goza.

É mais marcante, impressionante e emocionante desejar do que gozar. Como dizia o velho ditado latino, post coitum omne animal triste est. Traduzindo em bom português: depois de foder, todo animal fica triste! Traduzindo em nossos termos: depois de alcançar o que se deseja, todo mundo fica meio enfastiado. Como nos ensina Platão e Schopenhauer, depois de satisfeito o desejo vem o tédio, ou, depois de saciado o apetite vem o fastio. Fastio, como diz minha sábia mãe, é quando não temos vontade de apreciar aquilo que normalmente nos apetece.

É uma realidade muito simples que cada um dos senhores pode reconhecer na experiência amorosa já vivenciada. Lembrem-se dos velhos encontros amorosos da juventude: quando os senhores eram os amantes, ou seja, quando assumiam o papel de fazer a corte, certamente cada detalhe do encontro era muito mais marcante. Quando, porém, os senhores eram os cortejados e, sem serem amantes, aceitavam por polidez os convites de amantes impertinentes, os encontros eram certamente muito mais maçantes e tediosos. É por isso que as pessoas sempre reclamam de amarem quem não as ama, por que o amor cresce na medida de sua insatisfação - ou, nas palavras de Lacan, o desejo é sua insatisfação.

No frigir dos ovos, pois, se é mais marcante, mais emocionante e mais impressionante aqueles encontros com as pessoas que amamos e desejamos, e se as amamos e desejamos mais quanto menos elas nos amam e desejam, logo, é melhor, é mais emocionante, marcante e impressionante sermos nós os amantes do que sermos os amados!

6 comentários:

Aline Martins disse...

Fabio,
esse texto eu realmente adorei, vc conseguiu chegar na alma dos amantes agora. Parabéns

Hanna Fux disse...

Muito bom o texto!
Bem sei que o prazer maior esta, o desejo maior esta nakilo que nao conseguimos satisfazer...

Fred Costa disse...

mas qual a saída para os amantes? certo, a resposta poderia ser que depende das particularidades do ser... ok... mas uma só questão: ser amante ou amado trata-se de dualidades? ser amante ou amado, o amor deve ser mais do que isso...

Siloé disse...

O amor deve ser muita coisa: benigno, paciente, não se arder em ciúmes, não se ufanar, não se ensoberbecer, não se conduzir inconvenientemente, não procurar seus próprios interesses... etc. A lista é enorme... e justamente para suportar o tranco de que não há a relação sexual. Ou seja, a dita dualidade "amante x amado" não se desfaz totalmente na busca de ser Um. As peças não se encaixam... Sobre as saídas, vc adianta que há várias, cada um tem a sua. Entretanto, se é para apontar algo comum a todas: é apostar sem temer a insatisfação; investir sem garantias; não ceder de seu desejo é não recuar diante desse universo da falta!

Cristina Medeiros disse...

assim parece bom, só não sei se funciona... rsrsrs

Todo o Amor Que Houver Nessa Vida
Cazuza
Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria

Siloé disse...

nunca temos garantia de q vá funcionar,,,, srsr.. o jeito é ir arriscando!