Segunda-feira, Janeiro 17, 2011

O jogo amoroso

A conquista amorosa, todo homem sabe, é um jogo. Não há definição melhor para a experiência de conquistar uma mulher: o jogo é a analogia perfeita para o flerte que antecede o primeiro beijo que marca o início de um relacionamento, dure ele uma noite ou a vida toda. Seja longa ou curta, a conquista amorosa é um jogo que deve ser jogado com maestria e cuidado. Há alguns homens que se profissionalizam, outros são amadores, não importa: para conquistar o coração de uma dama, o homem deve estar disposto a entrar no espírito e jogar, com ela, esse jogo onde (esperamos) todos ganham no final.

Portanto, para simplificar essa ideia, vamos dividir a conquista amorosa em dois tipos de jogo: o jogo Co-Op, ou modo cooperativo, e o famigerado Match, ou modo disputa. Pode haver jogos onde esses dois estilos se intercalem, mas é mais provável que a conquista amorosa se baseie inteiramente em um ou no outro.

O modo Co-Op é como um jogo descontraído de frisbee na praia, ou um jogo de squash. Essas são as conquistas nas quais não apenas um indivíduo está interessado no outro, mas ambos se encontram e buscam deixar claro – com uma intensidade crescente, até o clímax do beijo – que o interesse é recíproco, e o encontro final, inevitável. No modo Co-Op, o objetivo da conquista não apenas é compartilhado – ambos sabem o que querem – como os dois participantes trabalham ativamente em prol de uma meta comum. O banco na mesa do bar está propositalmente ao lado do outro. A noite deste sábado está – vejam só, que coincidência! – absolutamente livre e disponível. As caronas das amigas são sumariamente rejeitadas. Cada flerte ou indireta é prontamente recebido com um sorriso ou, o que é melhor, com outra indireta (cada vez menos sutis). Cada movimento de um parceiro amoroso é somado ao movimento do outro, cada passo em direção ao beijo ansiado é um ritual que ambos sabem necessário cumprir – tais as regras sociais implícitas da corte amorosa. Não há fuga (o que não quer dizer que não haja nervosismo) e tampouco protelações: os jogadores se revezam para que a bola continue quicando na parede, e o disco não caia no chão. As únicas ameaças para o modo Co-Op, portanto, são externas: apenas fatores alheios à partida podem interferir em seu final.

O modo Match, por sua vez, é para praticantes radicais. O sentimento de atração mútua existe – do contrário, não há jogo, apenas assédio – mas o caminho para a meta final é arriscado, cheio de “poréns”, desvios, desencontros, mal-entendidos, embaraços. Como o próprio nome sugere, esta é uma disputa: os movimentos do homem são como movimentos de um jogo de xadrez que precisam ser medidos cuidadosamente; cada frase precisa ser pensada, cada investida deve ser meticulosamente calculada ou botará tudo a perder. Como uma disputa, os movimentos de um participante anulam os movimentos do outro, e às vezes recua-se, afastando-se da meta; outras vezes uma jogada audaciosa e bem planejada colocará o homem mais perto do coração de sua amada: ganha-se terreno. Contudo, o modo Match exige cuidado e esforço em um tempo determinado: o flerte que se alonga demais ultrapassa certa linha de segurança, o interesse da dama se arrefece, impacienta-se. Tanto foi dito, tanto foi feito, e nada sucedeu; é mais provável que o embaraço seja tão grande que os dois participantes simplesmente se distanciem, confusos e envergonhados porque nada aconteceu no tempo em que deveria acontecer, emaranhados no meio de tantas tentativas frustradas de aproximação que não deram em nada.

Voltando ao propósito do Match: o objetivo do homem é conquistar o coração da dama; o objetivo da dama, sortear empecilhos. O interesse da mulher (que, num nível elementar e quase intuído, existe) sempre está mascarado, propositalmente obscuro, nunca dito com clareza – e como os homens precisam de clareza! As indiretas são rebatidas com provocante – quase genuína! – ingenuidade, ou respondidas de uma forma tão vaga que nunca se saberá com certeza sua eficácia. Às vezes a mulher tem apenas vergonha, e todas as possibilidades de encontro ocorrem em grupos; às vezes o flerte é recebido com ambigüidade ou respondido literalmente – para pouco tempo depois ser reinterpretado por ela mesma, reacendendo o desejo: não importa como, o desejo da mulher jamais será do homem sem que ele prove merecê-lo, está-se sempre por um fio. Em alguns casos, pode-se mesmo dizer que o objetivo da mulher é desnudar, de uma vez por todas, o desejo implícito do homem, expô-lo inteiramente em seu próprio campo. E se isso acontecer, sempre haverá a possibilidade – as mulheres às vezes são bem cruéis – do desejo exposto ser negado: o homem deve vencer o Match sem denunciar-se; ele só ganha se conseguir desviar-se dessas armadilhas femininas protegendo suas intenções da exposição ao ridículo. Como eu disse, esse jogo não é para os fracos.

Assim, o Match se desenvolve enquanto o homem procura enredar a fugidia mulher em seu desejo sem, com isso, estilhaçá-lo no discurso vazio. Ele deve provar seu valor antes do tão almejado prêmio: o Match é quase um ritual, uma prova de resistência e sagacidade. Um movimento em falso, uma manobra ousada demais, e o jogo termina. De repente, instigado pela mulher, o afoito amante manda uma mensagem que, mais tarde, lhe parecerá boba e ridícula. Entre impaciente e envergonhado, recriminando-se pela afobação, ao homem só restará lamentar-se: como a dama de seu coração é difícil! E talvez por isso a ame mais ainda, e o jogo se alongue até o final por W.O.

Mas nem tudo são pedras no caminho do Match. Ao jogador desse jogo imprevisível, arriscado, aplica-se com certa parcimônia o provérbio que dita que “as melhores mulheres estão com os homens mais atrevidos”. Se as jogadas certas, no tempo certo, podem – vejam bem, podem – significar êxito na partida, certas manobras ousadas podem ser decisivas para o resultado final. O bom uso da tensão que perpassa o jogo – o desejo, a sensação de ridículo, o desnorteamento, a falta de certezas – pode virar a partida a favor do homem: em sua precariedade frente ao enigma do desejo feminino, ele arrisca, expõe-se contrariando todas as regras e normas e ordens do jogo, pondo-se audacioso e verdadeiro frente à mulher, elegante manobra tudo-ou-nada semelhante à cartada final do truco, que é tão mais vencedora quanto mais temerosa, imprevisível e súbita. Essa manobra arriscadíssima, claro, não elimina uma possível derrota – a mulher, assustada, pode recuar com seu desejo –, mas muitas vezes é responsável por vitórias vibrantes e apaixonadas.

Finalmente, qual jogo é o melhor? Impossível dizer. Cada qual tem seu mérito, seus prazeres. Na verdade, feliz ou infelizmente, não cabe tanto ao homem decidir qual jogo jogar: primeiro, porque ele simplesmente não manda em seu coração – e, conseqüentemente, não escolhe por quem ele irá se apaixonar –; segundo, porque quem ditará as regras do jogo sempre será a mulher. Ao homem, como sempre foi em incontáveis eras humanas, cabe tentar segui-las – ou corajosamente subvertê-las.

1 comentários:

Hanna Fux disse...

E onde esta o desejo da mulher nisso tudo!?