É incrível como, atualmente, no que diz respeito aos relacionamentos amorosos, o rigor socrático tem sido ironicamente evocado. Certa vez, um amigo, ao ser interrogado sobre seu “status de relacionamento” ficou meio constrangido, sem saber o que responder. A moça, com o inquisitivo espírito jornalístico que a intimidade permite, insistiu:
- Você está namorando a Beatriz?
- Defina namoro. Foi a resposta brusca e seca que recebeu. Na hora cogitei que fosse delírio meu acreditar que ele tinha lido os diálogos socráticos e agora repetia com a moça o exercício filosófico. Como o interesse dela era menos na definição conceitual e mais na novidade prática da notícia, a conversa foi se aprofundando sem receber respostas assertivas.
- Você já chegou a traí-la?
- Ah, isso é muito relativo, depende do que se entende por traição.
Impaciente, a moça utiliza o método do IBGE:
- Você considera que, do seu ponto de vista, daquilo que você mesmo considera como sendo uma traição, você já a traiu?
Quando achei que ela o havia finalmente encurralado, baixou-lhe definitivamente o daimon socrático e ele retrucou:
- O que eu entendo por traição pode ser muito diferente daquilo que ela entende...
- Então, o que importa é o entendimento dela? Ela já se sentiu traída?
- Não sei.
Alguns leitores mais desconfiados podem ver, nesse curto diálogo, em vez de um rigor conceitual, uma esquiva descarada, fundamentada na tão famosa safadeza masculina. Peço, porém, um voto de confiança para o meu amigo. Não para considerá-lo um filósofo, mas para analisar as possíveis razões que o levam a titubear tanto em suas respostas.
Uma primeira razão diz respeito à pluralização das possibilidades de laços e de pactos amorosos na contemporaneidade. É bastante razoável pensar que, há tempos atrás, a definição de traição fosse bem mais positiva – assim como o era a definição do status do relacionamento. Antes o foco era basicamente o casamento, sendo que o noivado era definido como a promessa de casamento. Depois surge a possibilidade de se estabelecer um relacionamento amoroso antes da promessa de casamento, com o objetivo de conhecer um pouco mais o parceiro. Isso também redefine a noção de noivado, incluindo-o na ordem de uma gradação – de uma relação amorosa mais frágil para uma mais sólida. Com o tempo, outras modalidades vão sendo instituídas (flerte, paquera, ficar, etc.). Não é que não aconteciam antes, mas, ao receberem nomes, ganham reconhecimento social e passam a fazer parte do protocolo das relações amorosas. Podem conferir, por exemplo, nas opções de status de relacionamento do Facebook. Acrescidas à sequencia tradicional (solteiro, namorando, casado, divorciado, viúvo), temos duas condições curiosas: ‘amizade colorida’ e ‘relacionamento enrolado’. Sem contar que ‘namoro’ foi substituído por ‘relacionamento sério’. Pasmem aqueles que não tinham reparado isso!
O fato é que, realmente, com transformações tão fundamentais nas possibilidades de relacionamento, não são poucas as pessoas que ficam perdidas hoje ao falar sobre si mesmas (enfim, não se titubeia somente por conveniência). Essa dificuldade parece justificar a proscrição da palavra ‘namoro’ em favor de ‘relacionamento sério’. Afinal, poucos se sentem seguros para afirmar precisamente o início de um namoro. Se as pessoas não sabem definir muito bem o status dos próprios relacionamentos, como saberão definir o que é ou não uma traição?
Arrisco-me a dizer, contrariamente às expectativas, que o que define uma traição não é o status do relacionamento. A traição é mais bem definida pela significação subjetiva do que pela conduta objetiva. A nomeação do status, obviamente, pode provocar efeitos subjetivos, posto que vem marcar uma condição do relacionamento, estabilizando seu sentido subjetivo que pode então ser compartilhado (nas redes sociais, p. ex.). Contudo, não há nenhum protocolo que defina, em relação a cada status, o que deve ou não ser considerado traição. As pessoas hoje se perguntam, p. ex., se é possível haver uma traição puramente virtual.
A mesma conduta objetiva pode adquirir um significado intersubjetivo diferente de um casal para outro, mesmo entre casais que se consideram no mesmo status de relacionamento. Isso não tem necessariamente a ver com o fato de um casal ser mais moderno ou mais liberal que outro. Há casais que apresentam uma liberalidade sexual bastante avançada, aceitando, p. ex., troca de casais para atividades sexuais, sem que isso seja considerado traição. Entretanto, há sempre um limite na liberalidade e, muitas vezes, o homem pode comer a amiga de todas as formas, mas, se lhe escrever apenas um verso ou lançar-lhe um olhar diferenciado, pode ser inapelavelmente acusado de traição.
Enfim, o mais importante para determinar uma traição não é nem o status de relacionamento, nem a conduta objetiva. Trai-se o parceiro quando se fere a sua confiança ou expectativa. Trair a expectativa é diferente de frustrá-la. Frustramos o outro quando não nos mostramos à altura do que ele espera. Traímo-lo quando estamos à altura do que ele espera, mas deixamos entrever, deliberada ou involuntariamente, que ele não está à nossa altura. Isso faz tanto sentido que uma amiga, recentemente, relatou sentir-se traída pelo namorado por que ele olha para outras mulheres com um olhar de desejo. Ele a trai quando a destitui do lugar que ela espera ocupar no desejo dele. Para isso, ele poderia ter transado com outra, ter beijado, ter saído, ter conversado, ter deixado um depoimento, ter simplesmente olhado ou pensado em outra pessoa. Nada disso, no entanto, é necessário para caracterizar a traição, pois basta que o outro suponha que qualquer dessas ações possa abalar o relacionamento para que a traição esteja lançada.
Eis então uma boa definição para a traição:
“Destituir o outro do lugar que ele acredita merecer em nosso desejo”.
4 comentários:
Dessa perspectiva, Fábio, parece inevitável que a traição seja generalizada... Como não destituir o outro deste lugar diante da pluralidade do desejo??? Continuo pensando o mesmo sobre esta questão: trair/ser traído é inevitável... o sofrimento é opcional. ;)
Parece possível negociar-se os limites de uma traição aceitável, perdoável. Pois há sempre a possibilidade dos acordos, do empenho da palavra. O problema é que nesse empenho, sempre se diz mais do que o dito expressamente. Sempre se empenha mais do que o pretendido.
Fabio, gostei da definição de traição, psicanálitica é claro...rss
Concordo, e já pensava antes que a pior das traições é alimentar a expectativa de alguem.Mas por outro lado trair é tambem fazer alguem acreditar, dando elementos concretos que ocupa ou pode ocupar um lugar que "você"( qualquer pessoa)não quer que ela ocupe. Pensando bem não deixa de ser uma destituição.
Barbara Barros
Como diz a música, "pecado é provocar desejo e depois renunciar"!
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